Violência política de gênero: uma discussão para além do público e do privado
DOI:
https://doi.org/10.47270/ra.v7i15.1230Resumo
A democracia liberal moderna assenta-se na separação entre o público e o privado, bem como nas ideias de igualdade e liberdade. De modo geral, o público refere-se à cidadania, à política, ao Estado; enquanto o privado ao afeto, à intimidade, à vida familiar e doméstica. Essa demarcação delimita o campo de atuação do Estado, pois na modernidade, se a esfera estatal interferir em tudo, não haverá liberdade, que passou a ser entendida como negativa, dissociando-se, em partes, da igualdade. No público todos seriam iguais, enquanto a liberdade estaria no privado. O problema dessa acepção é que o indivíduo do âmbito público foi pensado como abstrato, sendo desenraizado de qualquer contexto sociocultural e histórico; mas na prática é o homem, pois ele estaria livre dos afazeres domésticos e do cuidado com os filhos, já que a mulher faria esse trabalho, pois ela foi pensada como sendo naturalmente pertencente a essa esfera. Destaca-se, com isso, que há uma contradição na democracia moderna, pois homens e mulheres não estariam no mesmo patamar de igualdade e liberdade, pois o trabalho que a mulher exerce no âmbito privado traria obstáculos para ela adentrar no público. Isso se definiria como uma violência política de gênero. É por causa disso que teorias feministas querem transformar o privado, que é patriarcal, em assunto público, em assunto para o debate político, visto que não há uma separação nítida entre eles, sendo, por outro lado, intercambiáveis.
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